quinta-feira, 2 de julho de 2009

Venho de Tempos Antigos


Venho de Tempos Antigos
Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.
Deus: Uma superfície de gelo ancorada no riso.
Venho de tempos antigos. Nomes extensos:
Vaz Cardoso, Almeida Prado
Dubayelle Hilst... eventos.
Venho de tuas raízes, sopros de ti.
E amo-te lassa agora, sangue, vinho
Taças irreais corroídas de tempo.
Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.
Como se pisássemos em avencas
E elas gritassem, vítimas de nós dois:
Intemporais, veementes.
Amo-te mínima como quem quer MAIS
Como quem tudo adivinha:
Lobo, lua, raposa e ancestrais.
Dize de mim: És minha.
Hilda Hilst

Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Pablo Neruda

SETE CHAVES


SETE CHAVES



Vamos tomar chá das cinco e eu te conto minha grande história passional, que guardei a sete chaves, e meu coração bate incompassado entre gaufrettes. Conta mais esta história, me aconselhas como um marechal-do-ar fazendo alegoria. Estou tocada pelo fogo. Mais um roman à clé?
Eu nem respondo. Não sou dama nem mulher moderna.
Nem te conheço.
Então:
É daqui que eu tiro versos, desta festa - com arbítrio silencioso e origem que não confesso - como quem apaga seus pecados de seda, seus tres monumentos pátrios, e passa o ponto e as luvas.




Ana Cristina Cesar in A Teus Pés

Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto.


Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto.
Não se preocupe mais com ele e suas definições.
Cuide agora da forma.
Cuide da voz.
Cuide da fala.

Cuide do cuidado.
Cuide do carinho.
Cuide de você.
Ame-se o suficiente
para ser capaz de gostar do amor
e só assim poder começar a tentar fazer o outro feliz."

à espera de uma felicidade que não chega nunca.

… à espera de uma felicidade que não chega nunca.
Eles não compreenderiam, ninguém compreenderia.
Eu não compreendia, naqueles dias – você compreende?

- Caio F. Abreu in “Os Dragões não Conhecem o paraíso”.

Tenho um amor fresco e com gosto de chuva

Tenho um amor fresco e com gosto de chuva
e raios e urgências.
Tenho um amor que me veio pronto,
assim, água que caiu de repente, nuvem
que não passa.
Me escorrem desejos pelo
rosto, pelo corpo.
Um amor susto.
Um amor raio trovão fazendo barulho.
Me bagunça e chove em mim todos os dias.

Caio F. Abreu

Tenho uma rosa no peito


Tenho uma rosa no peito
Deixei que aqui a fixasses
Convencida que era amor


Nasceu
Floriu
Ganhou cheiro e deu-me cor
Agora quero mantê-la
Seja essa rosa o que for

Eugénio de Andrade